Gabriel Castro o Passista que te ensina a fazer música com os pés

Gabriel Castro o Passista que te ensina a fazer música com os pés

Olá, eu bati um papo super interessante com o Gabriel Castro, ele que apesar de muito jovem, já tem um currículo extenso de atividades, bem como: Passista, Diretor de Ala de Passistas, Coreógrafo, Comentarista de Carnaval, Produtor Cultural e Historiador.

Eu tenho certeza que após esta entrevista, você vai querer fazer aula com ele. Bom samba, digo, boa leitura…rs

Meu ritmo (falar da sua essência musical, como a música entrou em sua vida te levando a adentrar no universo do samba)

Sou nascido em uma família de músicos por parte de pai, são seis tios percussionistas, um trompetista e saxofonista e meu pai que é multipercussionista e cantor. Meu avô é o falecido mestre Telinho da Mangueira, meu padrinho de batismo é o cantor e compositor João Nogueira, pai do Diogo Nogueira. A música foi muito natural porque convivia com ela de forma próxima. Minha mãe conheceu meu pai tocando, não tem jeito, a música e, sobretudo o samba está no meu DNA. Recordo que aos 10/11 anos fui sozinho na escola de samba do meu bairro – Paraíso do Tuiuti – me inscrever na ala das crianças, trouxe a fixa de inscrição pra casa e assim foi.

Lembro até hoje de ouvir muitos cantores e compositores clássicos do gênero e quando adolescente me permiti ouvir e me deixar influenciar por diversos outros ritmos, o que me ajudou a compor uma identidade musical mais diversificada e apurada do que o normal para alguém da minha geração.

Sei tocar alguns instrumentos de percussão, sou amigo de muitos músicos e já inclusive desfilei em bateria de escola de samba. Para mim, meu samba é uma continuação da música, o passista faz música com seu próprio corpo, traduzimos com o corpo o que se toca na bateria, um é extensão do outro. Essa minha pré-disposição à dança e a carência na época de bons passistas masculinos no segmento me empurrou pro segmento aos 16 anos.

Influências (referências de pessoas, artistas e estilos que você admira e que exercem influências em seu trabalho)

Em meu trabalho como diretor de passistas, minhas influências são: a minha primeira diretora e quem me ensinou o ofício Márcia Vitorino, Ciro do Agogô, Aldione Senna, Valci Pelé, Marilene, Carlinhos do Salgueiro… Enfim, todos da geração acima da minha que passaram muita dificuldade pra manter o segmento de pé e engajado em um momento conturbado, mas abriram caminho e terreno pra pessoas como eu.

Da minha geração troco muita ideia e experiência com George Louzada. Na parte de passista como corpo dançante minhas influências são também Aldione Senna, Celynho Show, Vitamina, Kátia Suzuki, Fábio Batista e, sobretudo uma geração pontual de passistas masculinos da Mocidade Independente que ficou em atividade do final dos anos 90 até 2015, escola onde ganhei o Estandarte de Ouro de melhor passista do carnaval exatamente junto com estes caras em seu último ano (2015).

Enquanto coreógrafo primeiramente Fábio Batista porque primeiramente veio do meu segmento e Patrick Carvalho, Rodrigo Marques, grandes amigos/irmãos e evidentemente os três grandes gigantes da coreografia de comissões de frente que foram pontos de estudo de todos, Fábio de Melo, Carlinhos de Jesus e Marcelo Misalids.

Gosto muito do rumo que a dança do samba está tomando nos últimos anos e o diálogo com outras danças, estilos e estou sempre estudando para trazer novas roupagens sem em hipótese alguma esquecer a raiz do samba no pé.

Carreira (o que está fazendo, onde, como?)

No carnaval trabalho atualmente em três escolas, Diretor Geral/Coordenador de Passistas na Unidos de Vila Isabel, Império da Tijuca e coreógrafo de Comissão de Frente da Imperadores Rubro-Negros. Na Vila tivemos a felicidade de sermos a ala mais premiada do Carnaval 2019, no Império da Tijuca, são três premiações em dois anos, escola essa que me deu a primeira oportunidade de sambar na avenida e dirigir una ala de passistas na Sapucaí ainda aos 17 anos, fator inclusive que me levou a ser o diretor mais jovem do carnaval. Na Imperadores, gabaritamos as notas do segmento, ajudando a escola a ascender de grupo.

Passei por algumas escolas enquanto diretor como Aprendizes do Salgueiro, Unidos de Padre Miguel, União de Jacarepaguá, Mocidade de Vicente de Carvalho, Arranco do Engenho de Dentro e a que fiquei mais tempo e que naturalmente as pessoas me ligam a ela até hoje, Império Serrano, foram 11 anos e metade deles dirigindo a ala de Passistas que em minha gestão foi a mais premiada do Carnaval.

Como é seu processo criativo? Você como bailarino, professor, como cria uma aula? Este processo tem a participação, interação com seus alunos?

Meu processo criativo é bem particular, creio eu que cada um tenha o seu jeito. Às vezes tenho uma aula toda planejada e mudo grande parte na hora por conta do que estou sentindo daquela turma especificamente. Tento fazer uma simbiose entre o que o aluno quer e do que ele precisa. Nem sempre o que se quer é o que precisamos naquele momento.

Neste ano de 2019, você idealizou e produziu o workshop “Eu Sambo Assim – International” direcionado ao público estrangeiro que vem participar, se divertir aqui no Brasil durante o carnaval. Qual o balanço desta primeira edição? Já temos uma segunda temporada prevista para 2020?

O workshop “Eu Sambo Assim – International” foi um sucesso. Ele é a ponta da lança de um projeto voltado para comunidades onde pessoas de qualquer idade podem aprender o samba de forma ampla, desde sua história até sua dança sem precisar pagar mensalidade. Projeto esse que já vai para a 5° temporada.

Percebi uma demanda tremenda dos alunos estrangeiros e poucos workshops voltados a esse público de fora ávido por aulas e professores de qualidade. Criei o workshop, escolhi os professores e os convidados a dedo e foi um sucesso, esgotamos a capacidade das salas nos dois dias de evento.

O próximo já está certo, aguardando apenas alguns detalhes para ser lançado nos próximos meses. O workshop ajuda a bancar alguns custos do projeto como passagem dos professores, som, coisas do tipo. O samba no pé é a dança que mais cresce no mundo, por incrível que pareça está mais na moda fora do Brasil do que dentro, porque não usar isso a nosso favor?

Você atuou como passista por 10 anos. E atua hoje dirigindo alas de passistas na Vila Isabel e no Império da Tijuca. Como foi para você esta transição? E como está sendo este novo desafio de apresentar sua visão sobre seu oficio para a galera nova que está chegando?

Na verdade a transição de passista / diretor nunca ocorreu porque me tornei diretor muito novo, ainda com 17 anos. O passista sempre andou junto do diretor e vice e versa, sempre dirigi uma ou duas alas e era passista em uma terceira. Em 2017 fiz meu último desfile porque a responsabilidade enquanto diretor cresceu. Comecei a dirigir Especial, Acesso e Comissões de Frente nos grupos inferiores. Me falta tempo para exercer o ofício de passista na avenida atualmente, mas ainda faço shows e trabalho meu samba para permanecer atual sem perder minha essência pessoal.

Aprender para ensinar é um caminho natural para mim, tudo em minha vida é direcionado para ensinar, fiz graduação em História para lecionar, dou aulas de samba, dirijo passistas, dançarinos, bailarinos, independente da idade, gosto disso e passo o que aprendi ou minha percepção de mundo a eles porque conhecimento é pra ser compartilhado e multiplicado. Já formei muitos passistas e muitos diretores/professores que são agentes multiplicadores dessa cultura.

Ser passista é…?

Ser passista é traduzir com o corpo toda arte, cultura, musicalidade e história de um povo multicultural. É fazer música com os pés. O passista é o embaixador da alegria.

Seu trabalho foi premiado recentemente no Samba-Net 2019, que é a maior premiação do Carnaval Carioca, onde recebeu junto a Ala de Passistas da Unidos da Vila Isabel. Como fica o coração do pai da Heleninha neste momento?

As premiações são importantes porque medem o feedback da crítica sobre nosso trabalho, haja visto que não somos um segmento pontuado diretamente. Quem reclama deles geralmente é quem não ganha, questionar sempre o mérito do outro quando não alcançamos é um erro, porque deveríamos olhar pra si e refazer nosso processo.

Como faz para conciliar família, carreira nesta correria diária?

Bem, a Heleninha mora com a mãe, passo menos tempo com ela do que gostaria, mas na maioria das vezes estou trabalhando pra poder dar a ela uma vida melhor e menos sofrida do que eu e sua mãe tivemos. Ser pai é uma viagem muito louca e a gente que não teve presença nenhuma ou apoio de pai vai aprendendo no meio do processo. Mas só de saber que tem alguém que depende de mim, me faz correr atrás mais rápido e tentar incessantemente fazer com que as coisas fluam e dêem certo.

Viver de arte é difícil, viver de arte e ter alguém que dependa da sua arte é ainda mais difícil, mas malandro, carioca, suburbano sempre consegue um jeito nas coisas. Risos.

Espero que tenham gostado de conhecer um pouco mais deste universo do Samba com o Gabriel. E para ficarem por dentro de todos os eventos e orkshops que ele dara, basta seguir o seu Instagram @eu_gabrielcastro e aprender a sambar de verdade.

Ah! O Gabriel começou a dar aulas de samba no pé em Copacabana, na Zona Sul do Rio. No AF Dance Studio do querido Andrey Felipe. Vai lá SAMBAR com ele!

Abraços,

Cristiano De Jesus

Cristiano De Jesus

Eu, comunicador e sonhador, filho da Dona Rosa e do Sr. João que, enquanto admira às belezas da vida, ouve boas histórias e muitas músicas para criar sua própria trilha sonora.

6 comentários sobre “Gabriel Castro o Passista que te ensina a fazer música com os pés

  1. Você e minha continuação passei o anel de bamba pra vc meu amor “filho” te amo e parabéns por tudo vc merece

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